MULHERES NA CIÊNCIA
Mulheres que atenderam a atriz Camila Pitanga destacam combate a malária e a importância da ciência

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A atriz Camila Pitanga compartilhou nas redes sociais seu diagnóstico de malária e enalteceu a equipe de "mulheres fantásticas" da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) que a atendeu, formada só por mulheres. A artista fez questão de publicar um agradecimento com os nomes de cada uma das médicas e biólogas, da equipe de vacinação e também das agentes de saúde. Duas das profissionais citadas por Pitanga, a chefe do Laboratório de Malária da Sucen, Dra. Silvia Di Santi, e a infectologista e professora da USP Ana Marli Sartori, explicam abaixo um pouco mais sobre a malária e falam sobre a importância das mulheres nas ciências e do Sistema Único de Saúde (SUS) no combate a doenças infecciosas.

Silvia Di Santi estudou em Botucatu, em São Paulo, e queria ser jornalista, mas acabou se formando em Biologia. Com uma vastidão de áreas para seguir dentro do curso que escolheu, ela se encantou com uma aula de malária que teve em seu terceiro ano de faculdade e decidiu que era com isso que gostaria de trabalhar. Em 1984, montou o laboratório de pesquisa em malária da SUCEN e afirma que é muito gratificante estar nesta profissão. A doutora destaca a importância das mulheres na ciência.

- A ciência é muito povoada por mulheres, mas isso não quer dizer que nós tenhamos uma situação confortável em termos de comando de pesquisa. Hoje, com a pandemia, há muitos profissionais falando sobre coronavírus, mas a maioria é constituída por homens.Quantos ministros de Ciência e Tecnologia ou da Saúde foram mulheres? São sempre homens! Temos muita coisa ainda para conquistar. Na verdade, já temos uma base de mulheres trabalhando nos laboratórios, nos hospitais, mas ainda não somos vistas como devemos no caso de comando e decisão. Melhorou? Sim! É o que a gente merece? Não!

Dra. Silvia di Santi é chefe do Laboratório de Malária da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP)Dra. Silvia di Santi é chefe do Laboratório de Malária da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) Foto: Acervo pessoal
Já a Dra. Ana Marli Sartori classificou como fantástico o fato de a atriz ter feito questão de elogiar o SUS em seu perfil:

- O SUS precisa ser valorizado. Pouquíssimos países têm um sistema como esse, que se propõe a dar assistência médica à população. Nós temos serviços de excelência como o programa de Aids, de vacinação, que funcionam maravilhosamente bem. Um olhar desses para o SUS é muito importante.

O diagnóstico de Pitanga de malária pegou muita gente de surpresa, inclusive a atriz, que demorou dez dias para descobrir o que tinha. A doença, porém, é comum, e tem como sintomas febre, dor de cabeça e no corpo e calafrios. Uma mesma pessoa pode pegá-la mais de uma vez. Sem vacina disponível ainda, a proteção é feita com medidas como usar repelente, telar janelas e evitar sair ao entardecer e anoitecer, horário de maior atividade do mosquito transmissor, o Anopheles.

Mesmo em São Paulo, ou em qualquer outra região de Mata Atlântica, é possível ter casos de malária autóctones, ou seja, quando o parasito é contraído na zona de residência da pessoa. Segundo dados oficiais, mundialmente, há 220 milhões de infectados pela doença por ano, com cerca de 450 mil mortes. No Brasil, no ano passado tivemos 156 mil casos.

- É uma doença mais frequente na Região Amazônica, e o maior número de casos diagnosticados fora desta região, é de viajantes que foram para essa área endêmica e contraíram a doença lá. Mas a Mata Atlântica também é uma área de risco de malária. Não se compara com a Amazônia, mas sempre teve malária aqui e vai continuar tendo. Antes afetava mais as pessoas que frequentavam florestas, mas atualmente com os condomínios se aproximando cada vez mais da mata... — explica Sartori.

Camila Pitanga estava isolada devido à a pandemia numa casa no Litoral Norte de São Paulo, onde foi infectada. Uma outra paciente, diagnosticada em julho de 2020, também acabou adquirindo a doença no mesmo condomínio onde a atriz está morando. Segundo a doutora, o caso de Camila é clássico:

- Tem todos os sintomas de malária: febre, dor de cabeça, dor no corpo, vômito — lista Di Santi.

A dra. ressalta que a malária é muito suscetível a mudanças econômicas e políticas:

- Nós tivemos de 2016 para 2017, um aumento de 50% no número de casos. Eu tenho acompanhado o posicionamento de cientistas internacionais e, provavelmente, essa pandemia de coronavírus também terá reflexo nos casos de malária, principalmente nas regiões muito endêmicas como África, Ásia e alguns países da América Latina. Na Venezuela, por exemplo, há um completo descontrole. Nós nem sabemos a real estatística de lá — diz a especialista.

De acordo com a bióloga, houve uma diminuição de casos da doença nos últimos meses, porque as pessoas não estão viajando. Embora sejam detectados casos autóctones em estados como SP, RJ, ES, assim como o de Camila, o mais comum é a ocorrência de casos importados adquiridos em viagens àAmazônia, África, Ásia ou países da América Latina.

- Às vezes não há suspeita de malária, visto que os sintomas são semelhantes a outras doenças transmissíveis, como dengue. O médico pode suspeitar que se trata de alguma doença que esteja ocorrendo naquele momento, havendo atraso no diagnóstico e tratamento da malária. Em nossa experiência já assistimos caso de malária ser confundido com Ebola, mas normalmente, a primeira suspeita é dengue — explica Di Santi.

Ao contar sobre o diagnóstico da doença, Pitanga disse que passou dez dias com os sintomas e chegou a fazer um teste de Covid-19. No Brasil, é mais comum a malária causada pelo Plasmodium vivax, que é uma forma mais branda. Na África, ao maioria dos casos é de Plasmodium falciparum, que pode causar quadros mais graves se não tratados precocemente. Sartori explica que, no caso do falciparum, dez dias é um tempo enorme:

- Dez dias pode ser um tempo enorme dependendo da carga parasitária e tipo de malária que a pessoa tenha. Os casos mais comuns no Sudeste são mais leves, não sendo agravados mesmo após um tempo maior de sintoma. Como muita gente desconhece que está com malária acaba sendo difícil o diagnóstico. Em tempos de Covid-19, logo pensam tratar-se desta doença. Em alguns casos, em dez dias o paciente pode evoluir para óbito. Malária tem que ser diagnosticada o mais rápido possível e tratada imediatamente.

O tratamento pode ser feito em qualquer unidade de saúde, mas o diagnóstico e a dispensação de antimaláricos são centralizados nas unidades de referência, como a da SUCEN/Hospital das Clínicas da FMUSP. Em São Paulo, há 16 delas, sendo duas na capital. No Rio, um exemplo é a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Após o resultado positivo é indicada a terapia adequada, que varia de acordo com a espécie de Plasmodium.

- Aqui, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde, usamos o difosfato de cloroquina para tratamento de P. vivax e P. malariae, associado à primaquina no caso de P. vivax. A cloroquina, tão discutida atualmente, é utilizada com segurança e eficácia para tratamento de malária, sendo usada por três dias — ressalta Di Santi, que acrescenta que, para malária, o tratamento é eficaz. — O tratamento pode ser mais longo em casos graves de P. falciparum, onde são prescritos antimaláricos específicos para esta espécie. Mas normalmente, o tratamento é muito rápido e tem uma boa resposta.

A dra. Sartori também comenta sobre o uso da cloroquina para tratar um dos tipos de malária:

— O uso da cloroquina para malária é muito antigo. Ela realmente funciona e é a droga escolhida no mundo inteiro. É completamente diferente do uso que está sendo feito para Covid-19, que absolutamente não tem nenhuma evidência científica.

Médica-assistente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, Sartori, formada há quase 40 anos, relembra que seguiu o caminho quando, segundo ela, a infectologia ainda não era "glamourosa".

— Não tinha Aids, não tinha Hepatite C, não tinha Covid. A área não era tão glamourosa como é hoje. Naquela época, no Brasil, o que a gente tinha eram doenças tropicais como malária, doença de chagas, leishmaniose — relembra a médica, que ressalta a importância de ir se atualizando: — Nas doenças infecciosas isso é muito evidente. Existem milhões de vírus por aí que a gente nem conhece. A Amazônia é um exemplo. A quantidade de vírus que tem na mata ninguém pode imaginar. Um que antes não causava problema, passa a causar. A dengue é um exemplo. Quando eu me formei, não tinha no Brasil, era restrita à Ásia, hoje em dia, entrou e ficou.

Além de Di Santi e Sartori, Pitanga também fez questão de elogiar e nomear as "mulheres fantásticas do laboratório da Sucen": Drª Dida Costa, Drª Simone Gregorio, Drª Renata Oliveira e tão importantes quanto, as agentes de saúde Cida Kikuchi e Gildete Santos.



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