COVID-19
Como será a moda no futuro pós-pandemia?

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Se tem uma coisa que mudou nos últimos meses, durante o império da Covid-19, com certeza foi a moda. Afinal, chinelo, calça larga e cara limpa viraram o look mais popular da quarentena. Nos últimos meses, salto alto, calça jeans ou qualquer outro tipo de peça que trouxesse incômodo passaram a ocupar o fundo do armário daqueles que começaram a trabalhar de casa. “Passou a acontecer um processo de intolerância ao desconforto. As pessoas começaram a se questionar, e nesse processo, o conforto acabou se sobrepondo a imagem em si”, conta a consultora de moda Márcia Jorge. Mas será que isso vai continuar em alta no futuro pós-pandemia? Essa é a pergunta que ainda não tem resposta.
No começo, muitos se vestiam com a mesma roupa que usariam no escritório - mesmo sem sair de casa -, enquanto outros nem se davam ao trabalho de tirar o pijama. Mas, conforme o tal do home office foi incorporado, o conforto passou a ser uma necessidade. “A gente se acostumou com esse modo de vestir e passou a exigir isso. Passamos a procurar sim roupas confortáveis, mas que também fossem multifuncionais. Adequadas para uma videochamada com o amigo, para o trabalho e até mesmo para exercício físico”, explica Bruna Ortega, especialista em moda e beleza da WGSN, empresa multinacional de estudos de tendências.
Antes da pandemia, a maioria se vestia com camisa, calça e sapato social para ir ao trabalho, além de eventuais blazers. Hoje, o look é bem diferente: uma camiseta e calça de moletom. Nada tão sério, mas algo apresentável para possíveis conversas de vídeo.
De acordo com a WGSN, toda tendência surge por um comportamento de consumo, ou seja, uma demanda do consumidor. E justamente por conta dessa demanda, grandes e pequenas empresas da moda foram obrigadas a se moldar a nova realidade e investiram em linhas Homewear, roupas para vestir em Casa, em português.
A linha Arezzo Home, por exemplo, traz sapatos chiques e confortáveis. Já as roupas da Colcci Comfort Edition são trabalhadas em tecidos leves e maleáveis. A Renner ampliou sua coleção e, além das peças previstas, criou a coleção Comfy (Conforto, em português), oferecendo conjuntos que primam pelo conforto e estilo, com moletons, tricôs, vestidos e acessórios.
Luiza Pannunzio, criadora do Atelier que leva seu nome, conhece bem essa necessidade de reinvenção. Para não fechar suas lojas, ela trocou as peças mais justas, já conhecidas, por outras mais soltinhas. “A nossa principal característica de fazer a peça no corpo do cliente, como se fosse um alfaiate feminino, se perdeu, e a gente tem conseguido se reinventar com essas roupas confortáveis”, conta.

POPULAR

Transformação virou palavra-chave na moda. É nesse tipo de conteúdo que diversas blogueiras e influenciadoras estão investindo em suas redes sociais. O sucesso é tão grande quanto a mais nova febre da moda: o tie dye. A técnica, que ganhou fama nos anos 60 com o movimento hippie, voltou com força, especialmente durante o período do isolamento. O nome em inglês significa amarrar e tingir - afinal, o procedimento é exatamente esse.
A técnica colorida já ganhava popularidade antes da quarentena, especialmente com a moda praia. Mas, ao surgir as linhas comfys, ela sofreu um processo de fusão.

PÓS PANDEMIA

Ainda é difícil afirmar o que será do pós pandemia em tempos de tanta incerteza. Porém, algumas afirmações já podem ser feitas. A prioridade número um continuará, por um bom tempo, sendo a higiene e a proteção individual. “A questão de proteção vem não só com o caso das roupas que abraçam, que trazem a ideia de conforto. Mas também uma outra ideia de proteção, com peças que preparam a gente para situações adversas. Além de tecidos que protegem do raio UV, poluição, antiviral”, esclarece Bruna, da WGSN.
Jaquetas com proteção facial, conhecidas em lojas de esportes de aventura, serão cada vez mais comuns por trazerem tecnologias resistentes e também servirem como uma “segunda máscara”, reforçando a demanda por roupas multifuncionais e atemporais. “Toda vez que o mundo passa por um momento de crise, a gente tende a repensar o nosso consumo. Então o minimalismo também vem desse contexto”, diz Bruna.
Marco Muraro, vice-presidente comercial e marketing da Marisa, já percebe essas mudanças no comportamento do cliente. “Nas lojas, por exemplo, a cliente passou a adotar um consumo mais conservador. Elas chegam nas lojas com mais objetividade - sabem o querem e ficam menos tempo ali”, conta ele.
A quantidade perdeu para qualidade. O consumidor passa a se preocupar com o seu consumo: a origem das coisas e a sua durabilidade. Tanto pensando no melhor para si mesmo, quanto para o planeta - sem excessos, poluição ou desperdício.
É importante lembrar, no entanto, que somente existe a certeza sobre o sucesso de algo enquanto um certo comportamento existir. A partir do momento que o contexto econômico, cultural, político, que vivemos hoje for diferente, novas demandas irão aparecer. Ou seja, quando tivermos uma certeza da vacina, por exemplo, poderemos ir para um comportamento oposto. “Para quase toda tendência, existe uma contratendência. A gente vai ver no final de 2021, começo de 2022, a volta da moda maximalista: salto alto, mangas bufantes, rosa pink… Conforme os eventos voltarem ao normal, vamos ver uma demanda por peças mais suntuosas para a gente sair de casa e se montar”, indica Bruna Ortega.
Mas, assim como tudo, a moda não pode ser generalizada. Um grupo pode muito bem permanecer nessa linha de conforto, enquanto outros seguem na linha do exagero e o restante passe a misturar as duas propostas, criando um novo estilo.
Karl Lagerfeld, criador por trás de empresas como Chanel, Fendi e de sua marca homônima, costumava dizer que “calça de moletom era um sinal de fracasso”. O alemão, que morreu ano passado, talvez mudaria de opinião se tivesse vivido a pandemia.



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