PRECONCEITO
Islamofobia: o que oprime muçulmanas no Brasil não é o lenço, diz pesquisadora da USP

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A tomada do poder pelo Talebã no Afeganistão, que aconteceu na semana passada, teve consequências não só para as mulheres que vivem sob o regime, mas também para muçulmanas no Brasil. Isso porque os episódios de islamofobia - preconceito e ataques contra muçulmanos — aumentaram após as notícias sobre as ações do Talebã. O crescimento foi registrado pela pesquisadora Francirosy Campos, que estuda o assunto há mais de 20 anos. “Tudo o que alguém faz de errado em nome da religião se volta contra a comunidade muçulmana, especialmente contra as mulheres”, diz Campos, que é professora da Universidade de São Paulo, antropóloga com pós-doutorado na Universidade de Oxford, feminista e muçulmana.

A pesquisadora explica que movimentos políticos com teor religioso, como o Talebã, não são a mesma coisa que a religião do Islã. E que há muita diversidade e muitas diferenças no mundo muçulmano. A opressão das mulheres em alguns lugares, diz, não é resultado da religião, mas do “contexto cultural e político de cada lugar. O patriarcado, o machismo estão em todas as sociedades. Os homens são machistas dentro do Islã, fora do Islã, com religião, sem religião. Mas isso não impede que as mulheres construam suas agências, suas formas de luta e suas formas de resistência”, afirma a pesquisadora.

Campos é antropóloga, tem pós-doutorado na Universidade de Oxford e é docente na Universidade de São Paulo e explica que a mulheres sentem um sentimento de impotência, de tristeza. “A gente tem uma religião que nos ensinou a beleza da compreensão, do diálogo, dos valores humanos. Porque se a gente for olhar para os objetivos da Sharia (lei islâmica), eles são a preservação da vida, da consciência, da propriedade, da religião. E, quando você vê situações como essa, essas pessoas não estão nem chegando a 0,01% do objetivo da Sharia. Não adianta rezar dez vezes ao dia, mais do que está prescrito, sendo que você maltrata sua mãe, maltrata um animal, não é uma pessoa honesta... Sua oração não vale nada. Isso é ser extremista. E, além de tudo, tudo o que alguém faz de errado (em nome da religião) volta para nós, para a comunidade muçulmana”.

Francirosy salienta que o fato do Talebã ter tomando controle do Afeganistão pode aumentar preconceitos contra muçulmanos, e que isso já está acontecendo. “Minha área de pesquisa é justamente sobre islamofobia, e eu não estou dando conta de ver tudo. Porque as pessoas não sabem o que é o Islã, elas não sabem que (a situação no país) é um conflito político, não sabem muitas vezes nem onde fica o Afeganistão. Isso reverbera nos grupos mais frágeis, que são as mulheres que usam lenços, que muitas vezes sofrem ataques verbais e até físicos muito violentos. Há uma diversidade entre os muçulmanos - eles não são iguais, vêm de culturas diferentes, têm valores diferentes. Eu fiquei vendo várias postagens de mulheres falando sobre o lenço, dizendo para muçulmanas tirarem o lenço... Não é o lenço que é o problema”, destaca.

A antropóloga orienta que o uso do lenço pelas mulheres é um dos aspectos mais reconhecíveis do Islã para muitas pessoas, que o uso do hijab é uma obrigação alcorânica, mas existe o livre arbítrio. “Tenho várias amigas muçulmanas que não usam - e elas não são mais ou menos muçulmanas, só não estão seguindo um preceito religioso. Existem sociedades e famílias que permitem que suas filhas escolham, e tem sociedades teocráticas, como a Arábia Saudita, o Irã, que obrigam. Faz parte da cultura e da individualidade delas”, salienta.

Ela destaca que o uso do lenço tem vários significados. “Para algumas mulheres, é um empoderamento, para outras é religiosidade, para outras um ato político. Eu, por exemplo, sou muçulmana há muitos anos e sou docente da USP há mais de dez anos, sempre tive o desejo de usar, mas não tinha coragem, por medo da islamofobia, ou por medo de intimidar os meus alunos, passavam mil coisas pela minha cabeça. Mas quando comecei a ver a quantidade de meninas que não tinham a mesma estabilidade que eu, que estão lutando para usar o lenço e recebem todo tipo de ofensa, eu resolvi usar”, afirma.

Francirosy diz que é preciso tirar essa imagem de que a Sharia é o mal. Sharia significa caminho, são as orientações do Corão, os ensinamentos e as atitudes do Profeta Muhammad. “Quem é muçulmano pratica a Sharia: os muçulmanos rezam, os muçulmanos fazem jejum, isso faz parte da Sharia. O tipo de casamento islâmico, o tipo de divisão de herança etc. O que acontece é que esses escritos, esse código de conduta, passa por uma interpretação, então quanto mais sábio, mais erudito, quanto mais compreensão da língua árabe (língua do Corão), melhor a interpretação. Existem diversas escolas e formas de interpretação e interpretações literalistas, às vezes aliadas ao analfabetismo, com pessoas que têm pouco conhecimento da língua, podem cair para o extremismo, como aconteceu com o Talebã de 20 anos atrás”.

A antropóloga enfatiza que “As mulheres têm direitos no mundo muçulmano desde o século 7, desde o advento do Islã. Isso não quer dizer que em todas as sociedades esses direitos sejam garantidos. É como nós no Brasil - temos direitos, mas nem sempre eles são garantidos. As mulheres têm direito de voto, de escolher o marido, de usar anticoncepcional, direito ao prazer, à herança, ao divórcio, ao conhecimento. É um grande absurdo o Talebã proibir o estudo das mulheres. Não tem nada no Islã que diga que as mulheres não devam estudar, ao contrário: a primeira palavra revelada do Corão é leia”, ressalta.

- Existe uma diferença entre o Islã religião e o islã político, explica Campos. “O Talebã está dentro desse islã político, que se apropria da religião para uma ação política. Nessa categoria você pode colocar o Talebã, e outros movimentos políticos que nascem dentro de uma perspectiva religiosa. E há muitas divisões mesmo nesses movimentos políticos, com formas diferentes de interpretar a religião: mística, tradicionalista, reformista, literalista etc. Isso tem a ver com o contexto cultural e político de cada lugar, não com a religião. O patriarcado e o machismo estão em todas as sociedades. Os homens são machistas dentro do Islã, fora do Islã, com religião, sem religião. Mas isso não impede que as mulheres construam suas agências, suas formas de luta e suas formas de resistência”, enfatiza.

Muito discutida na Europa, a islamofobia é um problema real também para as muçulmanas no Brasil. “A islamofobia no Brasil é de classe. O que minha pesquisa aponta é que a islamofobia afeta muito mais as mulheres revertidas (convertidas) ao Islã, de classe média baixa, jovens e acima de 40 anos. As mulheres que andam de metrô, de ônibus, que andam a pé, que têm subempregos, são essas as mais afetadas. Se você anda de carro, você está mais protegida. Mas vai pegar um metrô às seis da tarde de lenço. É uma vulnerabilidade. As mulheres nascidas no Islã também sofrem intolerância, mas elas têm mais apoio. A mulher que se converte, ela vai sozinha, ela não faz parte de uma comunidade, não tem uma família muçulmana para dar apoio. A gente achava que as redes sociais teriam a maior parte das agressões, mas muitas das agressões são nas ruas. Desde puxar o lenço, fazer comentários pejorativos até pedradas. Tem mulheres que já sofreram pedradas, foram perseguidas, empurradas”, e finalizou, destacando que fala como acadêmica, que faz pesquisa há mais de 20 anos".

*Texto e reportagem de Letícia Mori da BBC News Brasil (www.bbc.com)



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